Para o roteirista Marcílio Moraes, autores têm pouca liberdade atualmente

Para o roteirista Marcílio Moraes, autores têm pouca liberdade atualmente

Durante coletiva no Hotel Transamérica, em Boa Viagem, na manhã deste sábado (1º), o roteirista Marcílio Moraes expôs a dificuldade que os roteiristas passam atualmente nas emissoras de TV: “Eu tenho um contrato ainda com a Record, mas é uma emissora muito religiosa, né? E eu não sou muito religioso. Enfim, os autores têm pouca liberdade hoje em dia”, desabafou. Marcílio, roteirista de clássicos da teledramaturgia brasileira como Roque Santeiro, Roda de Fogo e Mandala, está no Recife para o lançamento de seu primeiro filme, o thriller policial O Crime da Gávea. Exibido no CINE PE na noite da última sexta (30), o longa dirigido por André Warwar é inspirado no livro homônimo escrito pelo próprio Marcílio e lançado em 2003.

Sandra Bertini e Marcílio Moraes. Foto: Lana Pinho/Divulgação

No mesmo local, pouco antes da conversa com o roteirista, Sandra Bertini mediou um debate com os responsáveis pelos curtas exibidos no quarto dia de festival. Estavam presentes o Dr. Rildo Saraiva, que, aos 14 anos, foi protagonista do longa O Canto do Mar e agora, aos 80, é personagem do documentário O Menino do Canto do Mar, dirigido por Ulisses Andrade, também presente; o diretor de Peleja do Sertão, Fábio Miranda; e Day Rodrigues, diretora de Mulheres Negras: Projetos de Mundo.

Emoção e saudosismo na quarta noite do CINE PE

Emoção e saudosismo na quarta noite do CINE PE

Quase 64 anos após o lançamento do longa-metragem pernambucano O Canto do Mar, o Cinema São Luiz reviveu e remontou o filme de Alberto Cavalcanti. Na noite da última sexta (30), o CINE PE Festival do Audiovisual exibiu o curta O Menino do Canto do Mar, dirigido e roteirizado por Ulisses Andrade. No palco, entre outros membros da equipe, estava o ator Rildo Saraiva, que deu vida ao personagem principal em 1953. “O que eu posso falar? Aos 14 anos eu estava aqui, neste mesmo palco, ao lado de Alberto Cavalcanti e Hermilo Borba Filho”, lembrou Rildo, visivelmente emocionado. “O menino do canto do mar sou eu. O menino do interior, com vontade de ir para a cidade grande, estudar e aprender a escrever”, contemplou o ator, que hoje tem mais de 80 anos.

Na sequência, o público assistiu à animação cearense Peleja do Sertão, de Fábio Miranda. O curta, aprovado em 21 festivais, acompanha a noite de um grupo de sertanejos que, após sofrer um acidente, se depara com uma criatura assassina que vai matando um a um. Terceira projeção da noite, o documentário paulistano Mulheres Negras: Projetos de Mundo, da diretora Day Rodrigues em parceria com Lucas Ogasawara, arrancou lágrimas, aplausos e assovios do público. Com 25 minutos de duração, o filme dá voz à mulher negra e reverbera o grito de uma humanidade historicamente negada.

Filme de Day Rodrigues emocionou o público. Foto: Lana Pinho/Divulgação

Por fim, coube a O Crime da Gávea, dirigido por André Warwar, o fechamento da quarta noite do CINE PE. A equipe de produção do thriller policial foi representada pelo roteirista de novelas Marcílio Moraes, que estreia no cinema depois de ter escrito o livro que deu origem ao longa. “Para mim é um prêmio participar deste festival que tem tanto prestígio em Pernambuco”, declarou. Neste sábado (1º), o festival exibe os curtas Autofagia (PE), Quando os dias eram eternos, O Tronco e Sal (SP), bem como o longa-metragem Toro.

Técnicas e estéticas permeiam debate entre cineastas do terceiro dia do CINE PE

Técnicas e estéticas permeiam debate entre cineastas do terceiro dia do CINE PE

Dando continuidade às coletivas de imprensa com os realizadores de curtas e longas que estão na grade do CINE PE, esta sexta (30) foi dia de dar voz à diretora da ficção Aqui Jaz, Brenda Ligia Miguel, ao diretor do documentário em curta-metragem Retratos da Alma, Leo Bello, ao roteirista e ator Mário Bartolotto, do longa Borrasca, e ao diretor André Lage, de Los Leones. A discussão, mediada pela diretora do festival, Sandra Bertini, começou por volta das 10h30 da manhã. O curta-metragem Aqui Jaz, filmado com iPhone, despertou os olhares e dúvida no público presente e rendeu um bom tempo de debate a respeito da sua execução e estética. Já Léo Bello falou de sua própria relação contemplativa com a natureza e sobre o visual eremítico de Retratos da Alma.

A diretora Brenda Lígia falou sobre seu curta ‘Aqui Jaz’. Foto: Lana Pinho/Divulgação

O debate sobre os longas permitiu que o público conhecesse as técnicas utilizadas pelo diretor André Lage, que, durante um ano, acompanhou o dia a dia de um casal argentino, a travesti Mariana Koballa e seu companheiro, Raul Francisco. Durante a conversa, o cineasta lembrou que conheceu o casal durante uma viagem a passeio para a Argentina e que ficou apaixonado: “Eu vi que o material era potente e que, para fazer algo que explorasse tudo o que eu tinha ali, era necessário passar um longo tempo ao lado deles”. Mario Bortolotto, roteirista de Borrasca, explicou a escolha do título da obra, que significa “um temporal com ventania violenta e de pouca duração”, além de relembrar sua trajetória nos palcos de São Paulo.

CINE PE explora novos caminhos do audiovisual

CINE PE explora novos caminhos do audiovisual

A terceira noite de exibição do CINE PE, que aconteceu nesta quinta (29), começou trilhando pelos novos caminhos e possibilidades do audiovisual. A ficção pernambucana Aqui Jaz, de Brenda Ligia Miguel, é um exemplo prático de uma nova forma de fazer cinema: o documentário foi inteiramente gravado utilizando um telefone celular. “Todos nós temos um smartphone, e qualquer um que tenha uma câmera na mão e uma ideia na cabeça pode fazer cinema”, apontou a diretora, que também assina o roteiro, produção, montagem, edição de som, direção de arte, figurino e ainda atua no filme.

A diretora Brenda Lígia apresentou seu curta ‘Aqui Jaz’. Foto: Lana Pinho/Divulgação

Seguindo a linha desta edição, que apresenta uma programação extremamente plural, o festival exibiu também o documentário brasiliense Retratos da Alma, um convite para o expectador refletir sobre a natureza humana. Excepcionalmente, a noite contou com a exibição de dois longas-metragens, ambos participantes da Mostra Competitiva da categoria: o documentário mineiro Los Leones, de André Lage, que traça um retrato íntimo de um casal argentino, a travesti Mariana Koballa e seu companheiro, Raul Francisco; e a ficção paulistana Borrasca, de Francisco Garcia, que fala sobre amizade, traição, amor e morte.

Nesta sexta (30), o evento segue com a projeção dos curtas O Menino do Canto do MarPeleja do Sertão e Mulheres Negras: Projetos do Mundo. O longa da noite é o policial O Crime da Gávea, dirigido por André Warwar e com roteiro de Marcílio Moraes, baseado no romance homônimo do próprio Marcílio. As sessões acontecem no Cinema São Luiz a partir das 19h30, e os ingressos custam R$ 5 (preço único). Às 10h, no Hotel Transamérica, em Boa Viagem, acontecem as entrevistas coletivas dos filmes exibidos na quinta (29). No mesmo local, às 14h30, será sediado o seminário “Economia do audiovisual: Como é possível estimar a demanda por audiovisual no Brasil?”.

‘Impecável’, disse Olavo de Carvalho sobre documentário de Josias Teófilo

‘Impecável’, disse Olavo de Carvalho sobre documentário de Josias Teófilo

Após a coletiva com representantes dos curtas-metragens exibidos na noite da última quarta (28) dentro da programação do CINE PE, Sandra Bertini, diretora do festival, juntou o diretor pernambucano Josias Teófilo e o produtor Matheus Bazzo para promover um debate sobre O Jardim das Aflições. Em uma tela montada ao lado do palco estava uma das grandes novidades da 21ª edição do evento: o filósofo Olavo de Carvalho, retratado pelo documentário, falava ao vivo, via Skype, de sua residência em Richmond, nos Estados Unidos. A seleção da obra em questão foi um dos motivos do protesto que culminou na saída de sete filmes da grade inicial da programação.

Foto: Lana Pinho/Divulgação

“Ontem foi uma noite linda. Foi um momento muito atribulado o que aconteceu no CINE PE. Foi uma situação tensa, que no início me tirou o sono. De certa forma, me desagradou um pouco. Minha vida ficou um caos”, lamentou Josias. O diretor defendeu que, apesar das dificuldades, a polêmica também surtiu um resultado positivo: “O filme despertou uma atenção tremenda. Hoje, vendo essa sessão de ontem, eu realmente não tenho mais do que reclamar ou ficar bravo com alguém, porque isso faz parte da trajetória do filme. É uma história única, é uma história preciosa”, explanou.

“O filme não tem a pretensão de apresentar a filosofia do Olavo de Carvalho, mas apenas alguns temas do livro ‘O Jardim das Aflições’; nem mesmo o livro inteiro, apenas alguns temas. E isso foi feito de maneira maravilhosa, impecável, perfeita, e ainda tem o mérito de ser um dos raríssimos filmes brasileiros que têm relevância filosófica”, pontuou Olavo sobre o resultado final do documentário.