Primeiro longa-metragem exibido na 30ª edição do CINE/PE – Festival do Audiovisual, “Doutor Monstro” provocou um amplo debate sobre feminicídio, sistema de justiça, mídia e representação feminina durante a coletiva de imprensa realizada na terça-feira (02), no Novotel Recife Marina. O momento contou com a presença de parte da equipe do filme em uma conversa mediada pelo curador do festival, Edu Fernandes.
Inspirado em um caso real que chocou o país, o longa acompanha um julgamento em que mídia e justiça se entrelaçam, revelando como brechas institucionais podem influenciar a responsabilização de homens acusados de violência contra mulheres. A trama é protagonizada por Taís Araújo, que interpreta uma promotora determinada a enfrentar um dos casos mais complexos de sua carreira. Durante a coletiva, o diretor Marcos Jorge explicou que a adaptação da história para o cinema buscou ampliar a reflexão sobre temas que permanecem atuais mais de duas décadas após os acontecimentos que inspiraram a narrativa. “Doutor Monstro” nasce de uma história que chocou o Brasil e que, 20 anos depois, continua colocando perguntas muito difíceis. É talvez o primeiro filme brasileiro centrado em um tribunal, mas não é apenas sobre um julgamento. O filme fala sobre feminicídio, poder, gênero, o papel da mídia, doenças mentais e, principalmente, sobre a dificuldade que encontramos para fazer prevalecer a justiça”, afirmou o diretor.
Um dos pontos centrais da adaptação foi a decisão de transformar o promotor do caso real em uma promotora, personagem interpretada por Taís Araújo. Segundo Marcos Jorge, a mudança alterou profundamente a perspectiva da narrativa e permitiu que o filme dialogasse de maneira mais direta com as questões de gênero presentes na história. A produtora Cláudia da Natividade destacou que o projeto foi desenvolvido a partir de um olhar atento às experiências femininas e ao impacto da violência contra as mulheres na sociedade brasileira. “Temos um filme de tribunal, mas também temos um filme sobre feminicídio. Existe uma preocupação constante em não perder de vista quem são as vítimas dessas histórias e o que elas representam para a sociedade”, ressaltou.
Para a atriz Marcelina Fialho, o cinema possui um papel importante na ampliação de debates sociais urgentes. “A arte tem a capacidade de provocar reflexão e criar diálogos que muitas vezes não acontecem em outros espaços. É importante que histórias como essa continuem sendo contadas”, afirmou.
Ao longo da conversa, os participantes também discutiram o crescimento dos casos de feminicídio no Brasil e a necessidade de fortalecer políticas públicas de proteção às mulheres. O diretor reforçou que a obra não pretende oferecer respostas prontas, mas provocar questionamentos. “Eu gosto de filmes que fazem perguntas. A realidade é complexa e o cinema também pode ser. O que me interessa é provocar reflexão, não simplificar temas que são profundamente difíceis”, disse Marcos Jorge.