Desde o fim dos anos 1990, ainda estudante do curso de Artes Visuais da UFPE, além dos filmes e curtas em exibição, as atividades formativas oferecidas pelo festival foram decisivas para o amadurecimento da minha formação — como artista e como mulher. Foi na Oficina de Eletricista, Iluminação e Maquinista, ministrada pelo diretor de fotografia Jorge Monclar, na segunda edição do festival, em 1998, que me vi como a única aluna em uma turma inteiramente masculina. E foi ali também, diante desse cenário, que aprendi a me impor: a não ser colocada apenas "na frente das câmeras" nos exercícios da oficina. Afinal, eu estava ali para aprender o trabalho por trás das câmeras, como todos os demais.
A turma era formada por pessoas de vários estados do Brasil e, até hoje, mantenho amizade com alguns colegas daquele período — que, por sinal, tornaram-se grandes profissionais do cinema brasileiro.
Com o passar dos anos, aproximei-me ainda mais do festival por meio de colaborações no campo da criação, da confecção de troféus e da produção cultural. Em 2001, criei e desenvolvi o Troféu Guararapes e o Troféu Gilberto Freyre, que, por um período, integraram a trajetória do CINE/PE. Na edição seguinte, no 6º CINE/PE (2002), participei da seleção de curtas-metragens e, no ano seguinte, coordenei o júri formado por mulheres, já que a edição homenageava as mulheres do audiovisual brasileiro, no 7º CINE/PE (2003).
Essas experiências — em contato direto com o vasto cenário do audiovisual brasileiro, ainda no início da minha formação — foram fundamentais e contribuíram para a construção da minha subjetividade, aproximando-me cada vez mais, ao longo dos anos, do universo das imagens em movimento. Se hoje uma parte da minha produção artística, que considero das mais potentes, dialoga com o audiovisual — seja por meio de vídeo, videoperformance ou videoinstalação — isso também se deve à feliz oportunidade de, muito cedo, ter me aproximado do universo audiovisual promovido pelo CINE/PE.
A criação da Calunga
Em 2003, o CINE/PE me propôs um desafio central: criar um novo troféu para substituir o Passista. Buscando uma figura tão forte quanto representativa da cultura pernambucana, minhas referências e minhas raízes ligadas ao manguebeat me conduziram ao Maracatu de Baque Virado, uma das mais antigas expressões afro-brasileiras de Pernambuco, marcada pelo cortejo real, pelos tambores e pela força ancestral.
Escolhi a Calunga, conduzida pela Dama do Paço, como símbolo de ancestralidade, força, resistência, proteção e ligação com o sagrado — ligada aos rituais e às cerimônias das nações de maracatu.
A edição de 30 anos
Para celebrar os 30 anos do CINE/PE, concebi um Troféu Calunga comemorativo com um diferencial cromático: a saia vazada da Dama do Paço é preenchida com peças de resina translúcida nas cores da bandeira de Pernambuco, evocando vitrais e estabelecendo uma ponte com o frevo — especialmente com a sombrinha do passista, símbolo do troféu anterior.
Assim, o troféu celebra, em uma só peça, o cinema, Pernambuco e o próprio festival, unindo frevo e maracatu no mesmo gesto.