Cerca de mil pessoas enfrentaram a forte chuva que atingiu o Recife na noite desta quarta-feira (28) para prestigiar o segundo dia de exibição do CINE PE. Com ingressos esgotados desde o dia anterior, o grande protagonista da programação foi o longa-metragem O Jardim das Aflições, do pernambucano Josias Teófilo. Aplaudido desde sua entrada no Cinema São Luiz, o cineasta precisou se dividir entre as entrevistas à imprensa e as selfies com o público ávido. No discurso que precedeu a projeção do documentário, o diretor falou sobre a importância de exibir o filme em sua cidade e, sobretudo, no Cinema São Luiz, relembrando a passagem de seu avô, o cineasta Pedro Teófilo Batista, que esteve na inauguração do tradicional equipamento da capital pernambucana, em 1952. “Este cinema é muito importante também porque está aqui o mural de Lula Cardoso Ayres, que é pra mim a síntese do Recife. Primeiro que é um mural cinematográfico, é uma das maiores preciosidades dessa cidade”, exaltou.

Josias Teófilo foi ovacionado antes da exibição de ‘O Jardim das Aflições’. Foto: Lana Pinho/Divulgação
A noite contou também com a exibição das animações Almas Secas e Marina e o Passarinho Perdido, e do documentário Soberanos da Resistência, concorrentes na Mostra Competitiva de Curtas-Metragens Pernambucanos. O Ex-Mágico, Luiza e Dia dos Namorados foram exibidos dentro da Mostra Competitiva de Curtas-Metragens Nacionais.

Público lotou o Cinema São Luiz. Foto: Lana Pinho/Divulgação
Nesta quinta (29), o evento segue com a projeção dos curtas Aqui Jaz e Retratos da Alma, além dos longas Los Leones e Borrasca. Às 10h, no Hotel Transámerica, em Boa Viagem, acontecem as entrevistas coletivas dos filmes exibidos na quarta – incluindo uma videoconferência com o próprio Olavo de Carvalho, escritor e filósofo retratado em O Jardim das Aflições. No mesmo local, às 14h30, será sediado o seminário “Novos modelos de negócios no audiovisual: como a soberania do consumidor está revendo os conceitos na produção, distribuição e exibição?”, com participação dos produtores culturais Vilma Lustosa e Fernando Dias, do jornalista e diretor de TV Hermes Leal e do produtor cinematográfico Márcio Fracarolli, da Paris Filmes.
Na manhã desta quarta (28), o CINE PE promoveu um bate-papo mediado pela diretora do festival, Sandra Bertini, com Ricardo Fadel Rihan, produtor do filme Real: O Plano por Trás da história e o ator Sidney Santiago, protagonista do curta Diamante, o Bailarina, ambos exibidos na noite de abertura do evento.

Ricardo Rihan, Sandra Bertini e Sidney Santiago. Foto: Lana Pinho/Divulgação
A conversa, que durou pouco mais de uma hora e meia, aconteceu no Hotel Transámerica, em Boa Viagem. Em foco depois da recepção calorosa na noite anterior, Sidney Santiago falou sobre sua preparação para o personagem do curta-metragem de Pedro Jorge. “Esse foi um filme feito em um mês. Passamos duas semanas em contato com o universo do boxe. Eu já tinha uma proximidade com a bandeira GLBT, porque a gente faz um curso de base e empoderamento em São Paulo”, explanou. O ator ainda contou que se inspirou no pugilista norte-americano Muhammad Ali, considerado um dos maiores da história do esporte, para conceber Diamante.
Ricardo Fadel Rihan relembrou as dificuldades enfrentadas ao longo das gravações e da pós-produção de Real: O Plano por trás da História. Envolto em polêmicas, o produtor pontuou que “não fez um filme para agradar os retratados” e arrancou risos da plateia ao lembrar das críticas de alguns dos políticos envolvidos: “Uma das coisas que o Serra [José Serra, ex-Secretário de Economia e Planejamento do Estado de São Paulo] disse foi ‘esse ator é muito feio’ e ‘eu nunca usei terno listrado’. Ele odiou o filme”.
Teve início, na noite desta terça-feira (27), a 21ª edição do CINE PE. Depois de mais de duas décadas de estrada, o festival alcançou sua maioridade com alguns percalços – o que apenas aumenta a dimensão da vitória ao se observar a enorme fila que se formou na frente do Cinema São Luís. Diante da casa quase lotada, a diretora do festival Sandra Bertini comemorou a realização desta edição, mesmo com todas as dificuldades. Após discorrer um pouco sobre sua própria história, há tantos anos atrelada a este evento que já deixou sua marca entre os mais importantes festivais de cinema do país, Sandra agradeceu profusamente a todos os que participaram de alguma forma do processo. Visivelmente emocionada, concluiu: “Obrigada, CINE PE, por me deixar fazer parte dessa história”.

21ª edição do CINE PE começa com casa cheia. Foto: Lana Pinho/Divulgação
Antes de iniciar a programação anunciada da noite, foram exibidos quatro curtas de animação stop motion, todos com cerca de dois minutos de duração. Utilizando desde os tradicionais bonecos de massinha a bonecas e peças de Lego, A lição, A perna cabeluda e o Saci, A menina do leite e Princesas foram produzidos durante uma oficina realizada em 2016, numa parceria entre o CINE PE e a Prefeitura do Recife.
Na sequência, o diretor Danilo Baracho apresentou seu curta Los tomates de Carmelo, participante da Mostra Competitiva de Curtas-Metragens Pernambucanos. Ambientado na Espanha dos anos 1940, após a Guerra Civil Espanhola, o filme, segundo o cineasta, “se encaixa no atual momento de polarização política e ideológica do Brasil”.
Como representante de Diamante, o Bailarina, o ator Sidney Santiago, que interpreta o papel-título, discorreu sobre como o curta-metragem do diretor Pedro Jorge aborda diversas problemáticas importantes, como “a negritude e o racismo estrutural da sociedade, a violência contra os LGBT e o descaso do estado com seus atletas”. Sidney citou ainda a frase do boxeador Muhammad Ali que serve como epígrafe do filme: “Voe como uma borboleta, ferroe como uma abelha”.
Finalmente, como parte da Mostra de Filmes Hours Concours, foi exibido o longa Real – O Plano por trás da História, de Rodrigo Bittencourt. O filme foi precedido pelo discurso do produtor Ricardo Fadel Rihan, que comentou algumas particularidades da obra cinematográfica que reconta o surgimento do Plano Real – mas que, segundo Ricardo, “não pretende ser o retrato oficial do plano econômico” – e sobre o legado deste para o país.